Trabalhadores trazidos do Japão perdem emprego em Suape

Um fuso horário de doze horas e o Oceano Pacífico separam Marcos Paulo Miotto da família descendente de japoneses. Faz três anos que ele precisou voltar ao Japão para sustentar a família, que permaneceu no Brasil. Há cerca de sete anos, Miotto fez o movimento inverso – deixou o território nipônico e assumiu um cargo no Estaleiro Atlântico Sul (EAS).

Mas o sonho de ganhar a vida no seu país de origem naufragou, junto à crise que sufocou a indústria naval em Pernambuco. Hoje, Miotto é um entre os aproximadamente 200 dekasseguis – palavra que define os brasileiros, descendentes de japoneses, que migraram para longe em busca de trabalho – trazidos pelo EAS, que perderam seus empregos poucos anos depois com a crise do empreendimento.

Esses dekasseguis viram nas vagas a oportunidade de voltar para junto de suas famílias no Brasil. Para o EAS, eles representavam uma valiosa mão de obra, capaz de reforçar a produção do empreendimento milionário.

O contexto econômico no Japão também favoreceu o retorno dos trabalhadores. Em 2008, em plena crise mundial, o governo Japonês concedeu incentivos aos brasileiros que quisessem ser repatriados. “Cerca de 20 mil chefes de família brasileiros receberam 30 mil Ienes (próximo a US$ 3 mil) e, os demais membros da família, 200 mil Ienes (US$ 2 mil), com a condicionante de que eles não retornassem ao Japão durante, pelo menos, quatro anos e meio”, contextualiza Masato Ninomiya, presidente do Centro de Informação e Apoio ao Trabalhador no Exterior da Embaixada Japonesa no Brasil. Esse fluxo de retorno, contudo, vem se invertendo nos últimos meses pelo agravamento da recessão econômica no Brasil.

O dekassegui Miotto não chegou a aceitar o benefício porque temia ser proibido de retornar à Ásia, mas a possibilidade de crescimento profissional no seu país, benefícios e um auxílio moradia de R$ 800 – o que seria ‘dinheiro suficiente’ para morar bem em Pernambuco, segundo os recrutadores – o convenceram. “Quando cheguei em Suape, em 2010, encontrei outra realidade. Liderava uma equipe sem receber por isso e o auxílio moradia não dava para quase nada”, relembra o profissional, que foi demitido em 2012 por cortes de quadro. Atualmente, ele aguarda a conclusão de um processo na Justiça, no qual pede indenização por desvio de função.

Manuela Barão,  natural de São Paulo, também largou uma vida confortável na cidade de Chiba para refazer a vida em Suape, em 2010. A maior motivação na época era a promessa de um projeto de longo prazo do setor naval no Brasil. “Falavam que era uma obra grande, algo duradouro. Quando chegamos, percebemos que, naquela época, já havia crise e pedidos atrasados”, detalha.

No Brasil, ela ganhava R$ 3,5 mil/mês. No exterior, o ganho era por hora. Em 2012, foi demitida por consequência dos desarranjos do empreendimento, que já encerrou mais de três mil vagas.  “Dos 200, sobraram pouco mais de 10 dekasseguis no estaleiro. Eu, que já tinha um cargo alto aqui, precisei recomeçar do zero”, narra.

Na volta ao Japão, sete meses atrás, ela ainda tinha o intuito de um dia voltar ao Brasil. “Essa é uma possibilidade cada vez mais distante”, pondera.

Neto de japoneses, Flávio Date nasceu no Paraná e aprendeu, durante 20 anos, as avançadas técnicas de solda da terra do sol nascente, onde o alto investimento do governo em estruturas metálicas previne os danos com constantes terremotos. Em 2008, ele resolveu embarcar em uma nova tentativa de fincar raízes na Nação. “Eu só conhecia Pernambuco pela mídia, porém estava animado com a nova vida”. Nos dois anos de trabalho no EAS, Date morou com a esposa e dois filhos no bairro de Candeias. O salário de ‘R$ 3 mil e poucos’ era uma entre outras frustrações.

“Havia muita disputa entre os cargos, não tínhamos planejamento de produtividade, máquinas e ferramentas adequadas. Embora os dekasseguis tivessem a experiência adquirida em estaleiros de alta tecnologia, estávamos de mãos atadas”, revela com pesar, lembrando que participou do lançamento do primeiro navio petroleiro de Pernambuco, o João Cândido. “A embarcação demorou aproximadamente três anos para ficar pronta. No Japão, construíamos de oito a dez navios por ano”, diz.

Em 2013, Date deixou o Brasil com a sua família, depois de precisar abandonar o sonho do estaleiro. Preferiu se virar como autônomo na área de solda em Fukunoi. Mas a terra do sol nascente não era mais a mesma. “Antigamente, tinha emprego até para quem não falava a língua local”, reclama.

O Estaleiro Atlântico Sul preferiu não se manifestar sobre o assunto.

Arthur de Souza/Folha de Pernambuco

Mario tenta se reerguer do baque, mesmo experiente

O duro recomeço para quem ficou

Entre os poucos dekasseguis que permaneceram em Pernambuco depois de serem demitidos em Suape estão Mário Azevedo e Márcio Rodrigues.

A duras penas, Mário Azevedo, criado no Recife e casado com uma filha de japoneses, tenta se reerguer do baque.“Voltei para cá após nove anos no Japão, onde trabalhei em empresas navais como a Kanasashi. Saí do EAS cinco anos atrás, junto com muita gente, depois de 18 meses de trabalho. Na época, não deram nem justificativa”, recorda.

Encontrar outro emprego formal, que pagasse próximo ao ordenado de R$ 4,2 mil do EAS, não era fácil, por isso ele decidiu usar a experiência em obras de engenharia e na indústria naval para abrir o próprio negócio. A empresa prosperou durante certo tempo até ser atingida pela retração econômica. “Se as coisas não melhorarem daqui até o fim do mês, arrumo minhas malas e volto pro Japão”, sentencia.

Aos 22 anos, Márcio Rodrigues, da família Yoshida, foi se aventurar no país dos seus antepassados. Depois de 20 anos longe da família, para ele, que é do interior de São Paulo, Suape significava uma chance de retorno para casa. “Voltei em 2009, como encarregado de solda e, posteriormente, supervisor. Foi assim até 2013, quando decidi deixar a empresa por causa do estresse alto e do salário baixo. Aqui, ganhava R$ 3,6 mil/mês, enquanto no estaleiro IHI (do grupo que já foi sócio do EAS) a faixa era de US$ 7 a US$ 8 mil”, compara.

Por sorte, em pouco tempo ele conseguiu organizar uma empresa de passeios turísticos, a Catamarã Água Viva. Atualmente, Rodrigues mora no Cabo de Santo Agostinho com a esposa e os quatro filhos. “Não penso em sair daqui porque os negócios vão bem, mas por minha esposa já tínhamos voltado pra São Paulo, por causa da violência”.

Divulgação

Qualidade dos navios contestada: “retalhos de peças”

Os problemas que começaram cedo

“Faltavam blocos dentro do navio João Cândido no dia do seu lançamento”, revela o dekassegui Flávio Date. “A qualidade da produção dos navios era péssima, feitos de retalhos de peças de aço”, relata Marcos Miotto. Quando o Estaleiro Atlântico Sul começou a operar, em agosto de 2008, a retomada da indústria naval, depois da crise do setor nos anos 90, era uma grande esperança de empregos no País.

A mobilização de mão de obra para o empreendimento foi tamanha que retirou profissionais de atividades como a agricultura, os quais passaram a ganhar salários altos nas atividades navais, cuja especificidade é única. Suape era um mundo e o estaleiro um grande país de dimensões faraônicas, por onde transitavam trabalhadores de várias nacionalidades.

Apoiado nas encomendas do Programa de Modernização e Expansão da Frota (Promef) da Transpetro – subsidiária da Petrobras, o empreendimento prosperou por alguns anos. Ele detinha 22 dos 49 navios petroleiros encomendados pelo programa, o suficiente para garantir a operação por longos anos, até atingir sua maturidade operacional e conquistar novas encomendas.

Dez anos após a sua criação, em 2005, entretanto, o estaleiro ainda tinha sua carteira de encomendas centralizada na Petrobras e foi duramente atingido pela crise da petrolífera. Em 2015, sete sondas de perfuração encomendas pela Sete Brasil foram canceladas e sete das suas 22 encomendas da Transpetro cortadas, agravando a crise.

“O polo naval foi criado com dois importantes estaleiros em Pernambuco. Tinha a intenção de trazer outros, mas mudamos de planos, pois entendemos que não vai haver uma expansão da indústria naval aqui”, pondera o secretário de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco e presidente de Suape, Thiago Norões. O gestor ressaltou a evolução da planta naval. “Eles começaram com uma média de produtividade de 200 homem-hora (uma hora de trabalho realizada por um homem) por tonelada, quando, no Japão, a média é de 30 homem/hora. Hoje, essa média é bem menor”, defende, acrescentando que o Estado interviu para renegociar as perdas de encomendas do empreendimento, amenizadas pela Petrobras, e continua atuando para apoiar a conquista de novas encomendas, dada a relevância do empreendimento para a geração de emprego e renda local. “A indústria naval em Pernambuco não morreu. Ela passou por maus bocados, em virtude dos problemas da Petrobrás e políticos do Governo Federal”, diz.

O coordenador do curso de Engenharia Naval da UFPE, Silvio Melo, concorda que a dependência da Petrobras, junto a alguns erros de administração, foram prejudiciais. “As grandes empresas do País que se apoiavam na estatal foram duramente impactadas pelos problemas da companhia”, pontua. Para ele, o EAS ainda está em sua curva de aprendizado, ou seja, em um momento de aumento de produtividade. “Não podemos ser comparados ao Japão, com seus 100 anos de tradição na indústria naval initerruptos. Temos ao nosso favor os navios de boa qualidade e estamos ganhando em produtividade”, defende.

O professor do programa de Engenharia Oceânica da da UFRJ, Floriano Pires, avalia que o Promef foi relevante para garantir a viabilidade do empreendimento, mas precisava ter sido considerado como uma partida. “Era imprescindível ter atingido um nível de competitividade internacional para sustentar a empresa, contudo, depois de todos esses anos ainda não avançamos o suficiente”.

fOLHA PE